02/01/2012

A contingência da Vida

O que eu queria era que não fosse hoje
Podia ser amanhã ou ontem, tanto faz,
Mas que não fosse hoje, nem agora.
Era o que eu queria, se pudesse:
Porque hoje está sol
Um dia luminoso e claro
E eu não sei onde estou
Nem sei para onde vou
Quanto mais por onde vou.
Se não fosse hoje
Eu saberia pela certa
Teria imensas teorias
Que explicariam muito bem
Estar eu onde estivesse.
Com toda a certeza
Se fosse amanhã eu saberia
Porque é que hoje estou aqui
Sem saber onde é aqui;
E se fosse ontem o hoje não existia
E eu não estaria aqui seguramente.

13/11/2011

Enquanto houver gente no mundo

Não, o mundo não muda
com tantas lágrimas choradas
O mundo não muda
Com tantos sacrifícios feitos
Não muda
Com tanto amor doado
O mundo não muda.

Enquanto houver gente no mundo
O mundo não muda para a gente.

Mas talvez... Talvez!
Um amor sincero
Um sorriso aberto
Um carinho tímido
Um pensamento escondido
Uma sentença revisitada
Um duvidar do passado
Um passo
Um acenar

Talvez, quem sabe?
Facilitem uma jornada.

Num mundo que não muda
Pode ser esta a mudança.

04/10/2011

Aquecimento global

O sol morno aquece a cidade

As pernas nuas das mulheres
Dançam nas sandálias leves
As crianças riem como crianças
ao sair da prisão na escola
Até homens de pasta preta sorriem

Estamos em Outubro e é verão
Lembro-me dum homem a cantar
what a wonderful world

Sonho acordada, sorrio sozinha
Afinal o mundo todo inteiro

Não resiste ao verão tardio.

29/09/2010

Sete


7 gatas vadias, em 7 ruas esconsas, escondem 7 sardinhas.
Todas as 7 miam desafios ao dia que passa e para todas as 7, o sol se põe indiferente.

Uma é amarela, outra castanha. Uma tem pintas, outra tem riscas; há uma que tem pantufas, outra que não tem bigode e há uma que tem, na ponta da cauda, um tufo espetado. Uma tem pelos compridos e finos, outra tem-nos grossos e curtos; uma tem manchas negras de pelo lustroso e há outra que tem feridas peladas. Há uma a quem faltam unhas e há outra a quem faltam dentes, uma terceira que é coxa. Há mais diferenças, tantas!
Mas todas miam. Todas têm consigo a capacidade de criar o futuro, quer o tenham concretizado quer não; e todas têm, numa rua estreita, 1 sardinha escondida. Não necessariamente para si.

Há 7 carros velozes, em 7 estradas diferentes. Só há um destino, para as 7 gatas vadias.

Mas as sardinhas, ah! As sardinhas têm todas destinos diferentes.
Uma foi comida pelos filhos, outra pelos pais e uma outra ainda por formigas. Houve uma que deu alento a uma outra gata vadia, outra foi devorada por um cão necessitado. E uma foi roubada por quem não precisava.

E há uma que permanece escondida, à espera da sua necessidade.

21/03/2010

Por-do-sol

Foi bonito o adormecer do sol ontem.

Depois chamaram-me e a beleza desvaneceu-se. Devagar.

01/03/2010

Dia de Festa


Ontem foi dia de festa. Mas não para as rosas, para elas não há dias de festa.

A casa chia com a prolongada morte das rosas. Agoniam silenciosamente nas jarras cumprindo o seu destino, pois foi para isso que foram criadas.

Coitadas das rosas, é tão alegremente colorida a sua morte.

27/12/2009

São rosas, Senhor.

A Fada sentou-se na folha verde. Como todos os dias, tinha andado num virote a espalhar Felicidade entre os Homens, desgraçada raça sempre tão triste.

A folha verde era muito maior que ela. Deitou-se e sorriu; estava cansada, sim, mas valia a pena. Tanta gente que era agora mais feliz!

Morreu sem dar por nada, quando a mulher a esmagou com a pequena pá de ferro:

- Estupores dos bichos, dão-me cabo das rosas.

11/11/2009

A caixa de Pandora

As duas estavam sentadas num muro. Uma mulher velha e uma mulher jovem.
As mãos, quase juntas não se chegavam a tocar e no entanto, já haviam estado dadas.
As duas fixavam o horizonte, mas os pensamentos eram diferentes.
A jovem olhava para fora, a velha olhava para dentro.

A jovem pensava em toda a beleza que via.
A velha, em toda a tristeza que sentia.

A jovem imaginava o que ainda a esperaria.
A velha, a caixa que se abria. A caixa de Pandora.

Todas as experiências vividas. Todos os rancores tão guardados. Tudo o que ela pensava ter tão bem enterrado, fechado a sete chaves, surgia em catadupas, com uma raiva incontrolável. Pior ainda. O mal que o tempo não destrói, o tempo distorce ou aumenta...À raiva sucedia a tristeza, à tristeza sucedia a raiva, raiva da impotência em fazer partir tudo isso. E a beleza do horizonte escorregava pelos olhos que olhavam sem ver. Esta sua mania de tudo analisar, de tudo dissecar, seria isso que a tornava tão triste e simultaneamente tão furiosa?

Chegada a este ponto, Margarida fechou o livro e olhou para o muro.
Neste não se encontravam sentadas duas pessoas mas apenas uma, uma figura feminina, de meia-idade talvez.
Impossível saber no que a mesma pensava...

08/10/2009

Sorriso


Sorri.
A Vida e o Tempo nada notarão
Mas as rugas da tua cara
Terão outra forma.

Sorri.
O Mal e o Desespero nada notarão
Mas os que virem o sorriso
ficarão com esperança.

Sorri.
Tudo o resto fica na mesma mas
Os que tu amas e te amam a ti
Ficarão aliviados.

23/09/2009

Intervalo


Hoje o sol põe-se em silêncio,
A Vida vê a pausa, inquieta,
E a Morte ri-se, lá do Outro lado:
- Querias, não é? Mas hoje não estou para isso.
Os segundos passam, lentos, seguros,
Tudo continua como antes, imutável
mas o Homem chora pérolas mais salgadas
e o seu desespero é mais amargo e duro.
Não há calculadora
capaz de fazer estas contas.