13/11/2011

Enquanto houver gente no mundo

Não, o mundo não muda
com tantas lágrimas choradas
O mundo não muda
Com tantos sacrifícios feitos
Não muda
Com tanto amor doado
O mundo não muda.

Enquanto houver gente no mundo
O mundo não muda para a gente.

Mas talvez... Talvez!
Um amor sincero
Um sorriso aberto
Um carinho tímido
Um pensamento escondido
Uma sentença revisitada
Um duvidar do passado
Um passo
Um acenar

Talvez, quem sabe?
Facilitem uma jornada.

Num mundo que não muda
Pode ser esta a mudança.

04/10/2011

Aquecimento global

O sol morno aquece a cidade

As pernas nuas das mulheres
Dançam nas sandálias leves
As crianças riem como crianças
ao sair da prisão na escola
Até homens de pasta preta sorriem

Estamos em Outubro e é verão
Lembro-me dum homem a cantar
what a wonderful world

Sonho acordada, sorrio sozinha
Afinal o mundo todo inteiro

Não resiste ao verão tardio.

29/09/2010

Sete


7 gatas vadias, em 7 ruas esconsas, escondem 7 sardinhas.
Todas as 7 miam desafios ao dia que passa e para todas as 7, o sol se põe indiferente.

Uma é amarela, outra castanha. Uma tem pintas, outra tem riscas; há uma que tem pantufas, outra que não tem bigode e há uma que tem, na ponta da cauda, um tufo espetado. Uma tem pelos compridos e finos, outra tem-nos grossos e curtos; uma tem manchas negras de pelo lustroso e há outra que tem feridas peladas. Há uma a quem faltam unhas e há outra a quem faltam dentes, uma terceira que é coxa. Há mais diferenças, tantas!
Mas todas miam. Todas têm consigo a capacidade de criar o futuro, quer o tenham concretizado quer não; e todas têm, numa rua estreita, 1 sardinha escondida. Não necessariamente para si.

Há 7 carros velozes, em 7 estradas diferentes. Só há um destino, para as 7 gatas vadias.

Mas as sardinhas, ah! As sardinhas têm todas destinos diferentes.
Uma foi comida pelos filhos, outra pelos pais e uma outra ainda por formigas. Houve uma que deu alento a uma outra gata vadia, outra foi devorada por um cão necessitado. E uma foi roubada por quem não precisava.

E há uma que permanece escondida, à espera da sua necessidade.

21/03/2010

Por-do-sol

Foi bonito o adormecer do sol ontem.

Depois chamaram-me e a beleza desvaneceu-se. Devagar.

01/03/2010

Dia de Festa


Ontem foi dia de festa. Mas não para as rosas, para elas não há dias de festa.

A casa chia com a prolongada morte das rosas. Agoniam silenciosamente nas jarras cumprindo o seu destino, pois foi para isso que foram criadas.

Coitadas das rosas, é tão alegremente colorida a sua morte.

27/12/2009

São rosas, Senhor.

A Fada sentou-se na folha verde. Como todos os dias, tinha andado num virote a espalhar Felicidade entre os Homens, desgraçada raça sempre tão triste.

A folha verde era muito maior que ela. Deitou-se e sorriu; estava cansada, sim, mas valia a pena. Tanta gente que era agora mais feliz!

Morreu sem dar por nada, quando a mulher a esmagou com a pequena pá de ferro:

- Estupores dos bichos, dão-me cabo das rosas.

11/11/2009

A caixa de Pandora

As duas estavam sentadas num muro. Uma mulher velha e uma mulher jovem.
As mãos, quase juntas não se chegavam a tocar e no entanto, já haviam estado dadas.
As duas fixavam o horizonte, mas os pensamentos eram diferentes.
A jovem olhava para fora, a velha olhava para dentro.

A jovem pensava em toda a beleza que via.
A velha, em toda a tristeza que sentia.

A jovem imaginava o que ainda a esperaria.
A velha, a caixa que se abria. A caixa de Pandora.

Todas as experiências vividas. Todos os rancores tão guardados. Tudo o que ela pensava ter tão bem enterrado, fechado a sete chaves, surgia em catadupas, com uma raiva incontrolável. Pior ainda. O mal que o tempo não destrói, o tempo distorce ou aumenta...À raiva sucedia a tristeza, à tristeza sucedia a raiva, raiva da impotência em fazer partir tudo isso. E a beleza do horizonte escorregava pelos olhos que olhavam sem ver. Esta sua mania de tudo analisar, de tudo dissecar, seria isso que a tornava tão triste e simultaneamente tão furiosa?

Chegada a este ponto, Margarida fechou o livro e olhou para o muro.
Neste não se encontravam sentadas duas pessoas mas apenas uma, uma figura feminina, de meia-idade talvez.
Impossível saber no que a mesma pensava...

08/10/2009

Sorriso


Sorri.
A Vida e o Tempo nada notarão
Mas as rugas da tua cara
Terão outra forma.

Sorri.
O Mal e o Desespero nada notarão
Mas os que virem o sorriso
ficarão com esperança.

Sorri.
Tudo o resto fica na mesma mas
Os que tu amas e te amam a ti
Ficarão aliviados.

23/09/2009

Intervalo


Hoje o sol põe-se em silêncio,
A Vida vê a pausa, inquieta,
E a Morte ri-se, lá do Outro lado:
- Querias, não é? Mas hoje não estou para isso.
Os segundos passam, lentos, seguros,
Tudo continua como antes, imutável
mas o Homem chora pérolas mais salgadas
e o seu desespero é mais amargo e duro.
Não há calculadora
capaz de fazer estas contas.

17/06/2009

Ana


Que chatice, hoje teria de lavar a loiça, o pai andava outra vez com aquele ar inquisitivo.

Os pais eram boas pessoas, claro que eram - mas tão chatos! A vida não se resume a quem lava a loiça, caramba! Porque diabo aqueles dois não eram felizes? Tinham tudo para isso - dinheiro, casa, via-se que gostavam um do outro; mas não eram felizes. Não se entendiam, era o que era, não se percebiam um ao outro.

Isso nunca lhe aconteceria, nunca, nunca! Era coisa decidida desde os 11 anos, quando se apercebeu que nem tudo eram rosas na vida dos pais. De vez em quando, mais frequentemente nos últimos tempos, havia uma expressão ou um silêncio que lhe recordavam essa jura e era renovada. NUNCA teria aquela vida.

Claro, estas coisas têm sempre contra-partidas; teria de lavar a loiça, sim, só depois da ansiedade do pai acalmar é que poderia ir sair com o Rui. O Rui percebia o que ela dizia, ás vezes até percebia o que ela não dizia, era espantoso. Claro que era um bocado mais velho que ela mas que importância tinha isso, além desta compreensão que o João, o Manuel e o Paulo não tinham mesmo? O Rui era diferente, decididamente.

Sorriu. Ia levar a saia preta, dava-lhe aquele ar sofisticado e atraente que o Rui tanto gostava... E a blusa vermelha. Fazia um peito belíssimo, aquela blusa!.

Disse: "deixe estar, mãe, hoje lavo eu a loiça!" e sentiu cravado nas costas o olhar apreciador do pai. A mãe disse "sim" e afastou-se.

Que se passaria com a mãe? Ultimamente andava distante, não parecia bem a mesma. As conversas ao jantar eram estranhas, com ela a chatear o pai por causa de coisas que ele nem percebia, os sapatos do João, o café que não prestava, coisas assim. Nunca teria conversas destas com o Rui - trataria de tudo e depois informava-o e pronto. Era muito mais simples!

A mãe andava um bocado esquisita, realmente. A chatear o pai com os exames do João?!? O João era parvalhão até dizer chega mas sempre tinha tirado boas notas. Aliás, nem poderia ser de outra maneira, a mãe e o pai teriam um ataque se o seu querido Joãozinho tirasse menos de 14 a qualquer coisa... Seria um drama, bem maior do que quando ela tirou 12 a Português. Sim, porque ela era ela e o querido Joãozinho era outra coisa. Tanto melhor, não a chateavam. Se tivesse filhos nunca faria tais distinções, a mãe parece que não vê isto.

Mas ultimamente andava esquisita, não sabia bem dizer porquê. O jantar continuava a ser bom, todos os dias a mãe lhe perguntava pelos deveres, todos os domingos arranjava maneira de introduzir o assunto e lhe perguntava pelo coração... Fazia o que sempre tinha feito, sim, mas havia qualquer coisa diferente.

Ainda não lhe tinha falado do Rui. Será que a mãe tinha adivinhado? Ela parecia que adivinhava as coisas, às vezes até fazia medo. Mas não, quando ela tinha andado com o parvo do João, ela tinha adivinhado e não tinha reagido assim, tinha sido chata como o caraças. Até tinha razão, reconheceu, mas tinha sido tão chata! Agora era diferente. Fazia as mesmas perguntas de sempre mas era muito mais fácil dar a volta - parecia que tinha deixado de adivinhar. Sorriu novamente - ainda bem!

O pai também não andava lá muito bem disposto. Olhava para ela e para o João com uns olhos! Parecia estar à procura de qualquer coisa, um sinal, ela sabia lá. Mas não era coisa boa. Normalmente a mãe percebia e fazia com que ele dirigisse a atenção para outro lado. Mas como a mãe também andava muito esquisita, ultimamente sentia a inquisição do pai muito mais vezes. Mais incomodativa - às vezes até parecia que ele estava desapontado por ela ter boas notas!
Há uma semana que o pai esfregava o cabelo e olhava para a mão a seguir. Caramba, com um cabelo assim porque diabo faz ele aquilo? Uma vez tinha falado com a mãe e ela tinha-lhe dito que o pai tinha medo de ficar careca mas caramba, antes careca que com aquele cabelo.

A culpa era da mãe. Se não andasse tão aluada sabe-se lá com quê, já tinha feito o pai voltar ao normal. Mas não, ela andava assim diferente, a afastar-se com um seco "sim" quando ela até lavava a loiça. Será que se iam separar? Na turma toda só havia 2 pessoas com os pais não separados, ela e a Joana. Se calhar vão-se separar.

Ficou repentinamente angustiada. Sim, deve ser isso. Isso explica porque anda a mãe tão estranha e o pai tão infeliz. Deve ser isso e a culpa era sua, nunca tinha reparado mas ultimamente nem lhes ligava nem nada, não conversava com eles, fugia a sete pés daquela casa.

Era por causa dela que eles se iam separar, tinha a certeza. Tinha de falar com o João, será que ele tinha reparado? Ele era parvo até dizer chega mas percebiam-se bem nas coisas importantes - não se é gémeo à borla, apesar de tudo.

Olhou para o pai. Ele olhava para a mãe com um ar tão infeliz! Caramba, mas porque é que ela não via aquela expressão?