27/12/2009

São rosas, Senhor.

A Fada sentou-se na folha verde. Como todos os dias, tinha andado num virote a espalhar Felicidade entre os Homens, desgraçada raça sempre tão triste.

A folha verde era muito maior que ela. Deitou-se e sorriu; estava cansada, sim, mas valia a pena. Tanta gente que era agora mais feliz!

Morreu sem dar por nada, quando a mulher a esmagou com a pequena pá de ferro:

- Estupores dos bichos, dão-me cabo das rosas.

11/11/2009

A caixa de Pandora

As duas estavam sentadas num muro. Uma mulher velha e uma mulher jovem.
As mãos, quase juntas não se chegavam a tocar e no entanto, já haviam estado dadas.
As duas fixavam o horizonte, mas os pensamentos eram diferentes.
A jovem olhava para fora, a velha olhava para dentro.

A jovem pensava em toda a beleza que via.
A velha, em toda a tristeza que sentia.

A jovem imaginava o que ainda a esperaria.
A velha, a caixa que se abria. A caixa de Pandora.

Todas as experiências vividas. Todos os rancores tão guardados. Tudo o que ela pensava ter tão bem enterrado, fechado a sete chaves, surgia em catadupas, com uma raiva incontrolável. Pior ainda. O mal que o tempo não destrói, o tempo distorce ou aumenta...À raiva sucedia a tristeza, à tristeza sucedia a raiva, raiva da impotência em fazer partir tudo isso. E a beleza do horizonte escorregava pelos olhos que olhavam sem ver. Esta sua mania de tudo analisar, de tudo dissecar, seria isso que a tornava tão triste e simultaneamente tão furiosa?

Chegada a este ponto, Margarida fechou o livro e olhou para o muro.
Neste não se encontravam sentadas duas pessoas mas apenas uma, uma figura feminina, de meia-idade talvez.
Impossível saber no que a mesma pensava...

08/10/2009

Sorriso


Sorri.
A Vida e o Tempo nada notarão
Mas as rugas da tua cara
Terão outra forma.

Sorri.
O Mal e o Desespero nada notarão
Mas os que virem o sorriso
ficarão com esperança.

Sorri.
Tudo o resto fica na mesma mas
Os que tu amas e te amam a ti
Ficarão aliviados.

23/09/2009

Intervalo


Hoje o sol põe-se em silêncio,
A Vida vê a pausa, inquieta,
E a Morte ri-se, lá do Outro lado:
- Querias, não é? Mas hoje não estou para isso.
Os segundos passam, lentos, seguros,
Tudo continua como antes, imutável
mas o Homem chora pérolas mais salgadas
e o seu desespero é mais amargo e duro.
Não há calculadora
capaz de fazer estas contas.

17/06/2009

Ana


Que chatice, hoje teria de lavar a loiça, o pai andava outra vez com aquele ar inquisitivo.

Os pais eram boas pessoas, claro que eram - mas tão chatos! A vida não se resume a quem lava a loiça, caramba! Porque diabo aqueles dois não eram felizes? Tinham tudo para isso - dinheiro, casa, via-se que gostavam um do outro; mas não eram felizes. Não se entendiam, era o que era, não se percebiam um ao outro.

Isso nunca lhe aconteceria, nunca, nunca! Era coisa decidida desde os 11 anos, quando se apercebeu que nem tudo eram rosas na vida dos pais. De vez em quando, mais frequentemente nos últimos tempos, havia uma expressão ou um silêncio que lhe recordavam essa jura e era renovada. NUNCA teria aquela vida.

Claro, estas coisas têm sempre contra-partidas; teria de lavar a loiça, sim, só depois da ansiedade do pai acalmar é que poderia ir sair com o Rui. O Rui percebia o que ela dizia, ás vezes até percebia o que ela não dizia, era espantoso. Claro que era um bocado mais velho que ela mas que importância tinha isso, além desta compreensão que o João, o Manuel e o Paulo não tinham mesmo? O Rui era diferente, decididamente.

Sorriu. Ia levar a saia preta, dava-lhe aquele ar sofisticado e atraente que o Rui tanto gostava... E a blusa vermelha. Fazia um peito belíssimo, aquela blusa!.

Disse: "deixe estar, mãe, hoje lavo eu a loiça!" e sentiu cravado nas costas o olhar apreciador do pai. A mãe disse "sim" e afastou-se.

Que se passaria com a mãe? Ultimamente andava distante, não parecia bem a mesma. As conversas ao jantar eram estranhas, com ela a chatear o pai por causa de coisas que ele nem percebia, os sapatos do João, o café que não prestava, coisas assim. Nunca teria conversas destas com o Rui - trataria de tudo e depois informava-o e pronto. Era muito mais simples!

A mãe andava um bocado esquisita, realmente. A chatear o pai com os exames do João?!? O João era parvalhão até dizer chega mas sempre tinha tirado boas notas. Aliás, nem poderia ser de outra maneira, a mãe e o pai teriam um ataque se o seu querido Joãozinho tirasse menos de 14 a qualquer coisa... Seria um drama, bem maior do que quando ela tirou 12 a Português. Sim, porque ela era ela e o querido Joãozinho era outra coisa. Tanto melhor, não a chateavam. Se tivesse filhos nunca faria tais distinções, a mãe parece que não vê isto.

Mas ultimamente andava esquisita, não sabia bem dizer porquê. O jantar continuava a ser bom, todos os dias a mãe lhe perguntava pelos deveres, todos os domingos arranjava maneira de introduzir o assunto e lhe perguntava pelo coração... Fazia o que sempre tinha feito, sim, mas havia qualquer coisa diferente.

Ainda não lhe tinha falado do Rui. Será que a mãe tinha adivinhado? Ela parecia que adivinhava as coisas, às vezes até fazia medo. Mas não, quando ela tinha andado com o parvo do João, ela tinha adivinhado e não tinha reagido assim, tinha sido chata como o caraças. Até tinha razão, reconheceu, mas tinha sido tão chata! Agora era diferente. Fazia as mesmas perguntas de sempre mas era muito mais fácil dar a volta - parecia que tinha deixado de adivinhar. Sorriu novamente - ainda bem!

O pai também não andava lá muito bem disposto. Olhava para ela e para o João com uns olhos! Parecia estar à procura de qualquer coisa, um sinal, ela sabia lá. Mas não era coisa boa. Normalmente a mãe percebia e fazia com que ele dirigisse a atenção para outro lado. Mas como a mãe também andava muito esquisita, ultimamente sentia a inquisição do pai muito mais vezes. Mais incomodativa - às vezes até parecia que ele estava desapontado por ela ter boas notas!
Há uma semana que o pai esfregava o cabelo e olhava para a mão a seguir. Caramba, com um cabelo assim porque diabo faz ele aquilo? Uma vez tinha falado com a mãe e ela tinha-lhe dito que o pai tinha medo de ficar careca mas caramba, antes careca que com aquele cabelo.

A culpa era da mãe. Se não andasse tão aluada sabe-se lá com quê, já tinha feito o pai voltar ao normal. Mas não, ela andava assim diferente, a afastar-se com um seco "sim" quando ela até lavava a loiça. Será que se iam separar? Na turma toda só havia 2 pessoas com os pais não separados, ela e a Joana. Se calhar vão-se separar.

Ficou repentinamente angustiada. Sim, deve ser isso. Isso explica porque anda a mãe tão estranha e o pai tão infeliz. Deve ser isso e a culpa era sua, nunca tinha reparado mas ultimamente nem lhes ligava nem nada, não conversava com eles, fugia a sete pés daquela casa.

Era por causa dela que eles se iam separar, tinha a certeza. Tinha de falar com o João, será que ele tinha reparado? Ele era parvo até dizer chega mas percebiam-se bem nas coisas importantes - não se é gémeo à borla, apesar de tudo.

Olhou para o pai. Ele olhava para a mãe com um ar tão infeliz! Caramba, mas porque é que ela não via aquela expressão?

14/06/2009

Joaquim


O tipo gordo e de cabelo gorduroso - Joaquim Freitas e Oliveira, de seu nome completo - entrou na ambulância absorto em pensamentos. Sentia-se infeliz.

Não era a rapariga desconjuntada que o perturbava, já tinha visto tantos jovens assim! Ao princípio isso nem o deixava dormir, agora estava habituado. Tinha aprendido a não olhar muito de perto, porque os sinais da sua vida também desconjuntada o afectavam muito mais que a morte, a morte era coisa natural. Mas uma vida precocemente desconjuntada, tanta vez gritada nos sinais físicos a que a sua profissão o aconselhava a reparar, isso ainda o perturbava. Aprendeu a mal olhar, era melhor.

Não, Joaquim não se preocupava com o corpo triste a quem certificara a morte. Era a vida que o fazia infeliz, mais concretamente a sua própria vida. As coisas não iam bem em casa. Caramba, será que a Julia não via que estava cansado, desmoralizado numa profissão que não era o que sonhara? Será que não percebia que a obrigação de prover às necessidades de mais 3 pessoas além dele tinha morto os seus sonhos?!?

Sempre a exigir, sempre a exigir... Um dia eram sapatos para os miúdos - a dobrar, que raio, as coisas para os miúdos eram sempre a dobrar! - no outro uma máquina de café... Caramba, que mal tinha a antiga? Há 15 anos que bebiam daquele café, era bom!
E agora, andava silenciosa e de ar absorto, nem sequer o chateava para ir às reuniões de pais. Isto não era natural.

Joaquim acachapou o cabelo com a mão, nunca tinha reparado que era gorduroso. Pegou no pequeno espelho do kit da ambulância e viu: bolas, o cabelo estava horrível! Teria sempre assim o cabelo? Não era falta de banho, tinha lavado a cabeça no dia anterior, lavava sempre a cabeça de 2 em 2 dias pois tinha ouvido dizer que lavar todos os dias levava á calvície. Mas assim não, palavra que a cabeleira parecia que não via sabão há 1 semana. Pensou que devia perguntar ao barbeiro. Eles lá sabem, é a profissão deles - e arrumou o assunto na sua cabeça.

Pensou nos filhos. Os adolescentes deviam dar problemas, toda a gente sabe que os adolescentes dão problemas. Ele tinha dois: porque diabo não lhe davam problemas?!? Sempre tão certinhos, a Ana e o João.

Boas notas. Bem educados, pediam sempre licença antes de abandonar a mesa.
Ajudavam em casa, a Ana muita vez lavava a loiça, o João lavava o carro todos os fins-de-semana.
Bons miúdos. Ele e a Júlia nunca tinham sido chamados à escola, nem na primária nem no liceu, e eles já estavam no fim do liceu. Bons miúdos. Seriam demasiado bons miúdos? Toda a vida ouviu dizer que os adolescentes davam problemas - porque é que os seus não davam?

Se calhar era por causa da Júlia. Era extraordinária, a Júlia. Havia sempre roupa lavada nas gavetas, comida boa e quente a horas certas, certificava-se todos os dias que as crianças tinham os trabalhos de casa feitos. Nem quando ele esteve desempregado lhes faltou nada. O Joaquim não fazia idéia como mas a verdade é que em casa nada mudara nesses meses de aflição: refeições fartas e quentes a horas certas, roupa lavada na gaveta, um sorriso na cara.

Era isso - actualmente faltava-lhe o sorriso. Ela sempre sorrira, sempre! E quando ele esteve desempregado, nunca se tinha apercebido de sapatos ou máquinas de café, ela sempre dera conta do recado. Porque diabo vinha ela agora com estas conversas?!?

Ultimamente ela não sorri. Joaquim sente-se cada vez mais infeliz. Ele está igual ao que sempre foi, porque é que a Júlia não sorri?!?

27/05/2009

Fim


A rapariga lá estava, desconjuntada no passeio público, nuns preparos que nunca acreditaria em vida: uma perna para um lado, a outra para o outro, a saia sem preceito deixava ver as cuecas molhadas por falta de controlo biológico no momento de tensão extrema, um espectáculo triste que nunca teria permitido se o soubesse.

Á sua volta borbulhavam curiosidades, uma coisa para contar no dia seguinte, quando fossem tomar o café da manhã no emprego. Ninguém estava ali para ajudar - a miúda estava claramente para além de qualquer ajuda neste mundo, imóvel e descomposta na praça pública.

A polícia chegou. Afastaram o público em geral, olharam para cima à procura da janela, mediram e anotaram todos os centímetros. Também eles não estavam ali para ajudar, só para tomar conta da ocorrência e descobrir, se possível, se tinha sido desgosto de amor, assassínio ou uns copos a mais.

A ambulância veio. Conferenciaram com a polícia e um tipo gordo e de cabelo gorduroso tomou notas e assinou a certidão de óbito. Mal olhou para ela, tão obviamente morta da queda. Mas também ele não estava ali para ajudar; precisava de lá estar, o ordenado ao fim do mês punha o pão na mesa da família e pagava a educação dos filhos, um par de gémeos alegres e cheios de vivacidade.

Deixaram inscrita na via pública uma silhueta a giz, retrato obsceno da sua pose involuntária.

Tarde na noite, o cão passou por ali. Cheirou e voltou a cheirar, ganiu sabe-se lá porquê, avançou, voltou para trás e por fim levantou a perna e urinou no giz, apagando a sua figura patética e sem defesa.

O mundo ficou mais pobre, nesse dia. Ninguém notou e o cão não sabia, um cão não percebe nada destas coisas. Porque terá ganido o cão?

17/05/2009

Uma como nós Chap. 1 - "Tadito"

Miau...
Antónia pousou o saco das compras no chão e olhou para a criatura escanzelada que se tinha aninhado à porta de casa.
O bicho, escanzelado, famélico, enrolou-se-lhe nas pernas com a cauda em riste, e voltou a soltar o mesmo queixume.
Com um encolher de ombros e um supiro, Antónia pegou no bicho com uma mão e com a outra no saco das compras que tinha pousado, num daqueles impulsos de que por vezes nos arrependemos. E entrou em casa.
Resmungando ao mesmo tempo com o bicho, abriu a porta do frigorifico e tirou o pacote de leite, deitando em seguida algum num pires, que empurrou com gestos bruscos na direcção do animal.
Esta sua mania de se ocupar dos coitados ainda lhe ía sair caro. Para já, a sua noite de televisão, com o novo programa de descoberta de celebridadas, estava seriamente comprometida.
Antónia voltou a resmungar enquanto o bicho se lambia os bigodes satisfeito. E mentalmente, começou a fazer a lista de coisas que ia ter que fazer por causa da chegada do gato à sua vida (veterinário, vacinas, antipulgas, comida...) Suspirou de novo. Ía ter de voltar a sair pela certa. Que chatice...
Antónia era viúva. O marido tinha morrido cedo e, quando pensava nele, era uma raiva surda que lhe enchia o peito. O malandro...
Tinha sido um óptimo marido. Atento, inteligente, carinhoso, amante... e era justamente aí que residia o problema. Quando morreu, deixou um enorme vazio. E Antónia tinha-lhe raiva por isso, por ele ter partido tão cedo e deixado aquele vazio enorme no seu peito. Chegava a pensar que por vezes a vida seria agora mais fácil se ele tivesse sido mau marido. Assim poderia pensar nele com carinho, visto que já estava morto. É tão fácil pensar bem dos mortos que foram más pessoas! É assim uma espécie de lei de compensação.
Mas o marido dela, não. Tinha sido uma espécie de metade dela, e quando pensava nele, de raiva, falava-lhe em voz alta e descompunha-o com todos os palavrões de que se lembrava por ele se ter ido embora sem ela.
Como as pessoas a quem se amputa uma perna e que ainda sentem comichão no membro inexistente... E coçam a prótese.
Antónia voltou a suspirar enquanto olhava para o gato. Tadito... Tadito era um bom nome para o bichano. Fazia-lhe lembrar o médico que a seguia no Centro Farmacêutico Experimental que ela frequentava. Tinha assim os mesmos olhos doces e os mesmos ossos angulosos. Até o bigode era similar, espetado e ralo.
Antónia frequentava o Centro Farmacêutico Experimental desde a morte do marido.
De facto, tinha sido a raiva que a tinha levado a frequentar o Centro.
Eles precisavem de cobaias, e pagavam bem.
Ela precisava de uma escapatória, de uma justificação para seguir o caminho do marido, segui-lo aonde quer que ele estivesse, mesmo que esse sítio fosse o nada. E como não conseguia pôr fim à vida, assim simplesmente, até porque ainda a amava demasiado, achou que ser cobaia era um bom compromisso.
Sem contar que lhe dava um óptimo complemento monetário.
O médico que a seguia era simpático. Ela nunca se lembrava bem do nome dele, tinha assim um nome fora de vulgar, de outros tempos, tipo Valentino... ou seria Virgílio? Na cabeça dela era mais um "Tadito"... Atencioso, preocupava-se com ela e achava um pouco estranho ela frequentar o Centro, pois estava habituado a outro tipo de pacientes. Pessoas mais deprimidas, menos interessantes, mais desesperadas... Antónia sabia que para ele, ela era diferente. Ele gostava sinceramente dela e tinha sempre medo de que, quando a voltasse a ver, ela viesse com alguma maleita que passaria a figurar nos "efeitos secundários" de uma das muitas drogas que o Centro, por intermédio de tantas outras Antónias, testava. Enquanto lhe fazia as análises quinzenais de rotina, iam conversando sobre tudo e mais alguma coisa.
E pouco a pouco, Antónia sabia-o, para o médico, a conversa foi-se tornando um dos efeitos secundários das visitas quinzenais de Antónia.
Tadito... murmurou ela enquanto olhava para o gato e se lembrava do médico.
Numa concordância com o nome escolhido, e num salto ágil como só os gatos sabem dar, o bichano saltou-lhe para os braços.
Pois sim. Num encolher de ombros, pegou na mala e voltou a sair com o gato na mão.
- Vamos começar pelo veterinário, ok ? Porque se vais viver na minha casa, nem penses que aceito pulgas como hospedeiras.
O gato ronronou em resposta.
(Continua)

17/04/2009

Resistência

Durante a infância
O mundo era infinito
e havia esperança

Durante a adolescência
O mundo era enorme
e havia veemência

Durante a juventude
O mundo era grande
e havia de tudo

Durante a idade adulta
O mundo existe apenas
embora já com multa

Durante a velhice porém
o mundo já não existe
e pesa-se sempre a alguém

Ah! O intenso desespero
de já não querer viver
e estar são como um pero!

Pode levar à demência,
este visto permanente
na total impotência

A tristeza essencial
d'uma vida resistente
é que resiste, afinal.

06/04/2009

Finalmente

O rapaz chorava, infelicíssimo.

O seu desgosto era profundo e completo, portanto desesperado. Estava - fisicamente! - incapaz de reconhecer que não é possível manter aquele estado de exaltação eternamente - era jovem e não sabia que as exaltações nunca duram muito tempo. Portanto, estava extremamente infeliz por toda a eternidade, que era a duração do presente.

Toda aquela miséria e desespero eram estranhamente doces; a sua juventude inocente também desconhecia que o sofrimento pode viciar, tal com a excitação, o amor ou mais buriladamente, a heroína.

Levantou-se e com a mão, limpou as lágrimas. Ah! A vida não merecia a pena de ser vivida!

Pegou na caçadeira, entrou pelo colégio adentro e matou tudo quanto viu mexer: não sofreriam como ele, não! Era demasiado doloroso, crianças tão inocentes e frágeis não mereciam tal desespero.

Quando já tinha acabado com todo o sofrimento potencial, apontou a arma para si próprio e premiu o gatilho, matando o sofrimento actual.

Descansou da dor. Finalmente.